Ep. 68 - Um PORTUGUÊS consegue falar GALEGO?

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Ep. 68 - Um PORTUGUÊS consegue falar GALEGO?
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Conversei com o Eduardo Maragoto, presidente da Associação Galega da Língua, que me explicou o Reintegracionismo galego e me ensinou a transformar o meu português em galego.


TRANSCRIÇÃO


Será que um lusófono consegue falar galego? Será que precisamos sequer de tentar?


No passado fiz um episódio sobre estas duas línguas irmãs com o Mario do canal de YouTube olaxonmario, que foi o episódio número 54, e para o episódio de hoje tive o prazer de entrevistar o presidente da Associação Galega da Língua, Eduardo Maragoto.


O Eduardo vai explicar porque é que, segundo o Reintegracionismo, o galego deveria ser considerado como parte da Lusofonia, e depois vamos ver quais é que são as pequenas alterações que um português tem de fazer à sua gramática e pronúncia para transformar o seu português europeu em galego.


No final vou pôr todas essas dicas em prática e vou tentar ler um texto no meu melhor galego. Espero que gostem!


Bem vindo Eduardo. Tu és galego, portanto sendo nativo de língua galega já tens uma certa facilidade com o português, mas tu falas português fluentemente. Como é que aprendeste o português?


Eu para além de ser galego e considerar que falo uma variedade do português, considerar que na Galiza se fala uma variedade do português, eu para além disso sou professor de português, sou professor de língua portuguesa e já nasci numa família em que o galego era usado e defendido partindo da ideia de que o português não era uma língua estrangeira na Galiza. Partindo da ideia que o galego era uma espécie de continuidade do português e o contrário. 


Então, a minha motivação para estudar português e acabar por tornar-me professor de português, eu acho que já vem daí. Depois na universidade fiz um Erasmus, em Portugal, em 97-98. Foi esse o ano, foi o ano do Saramago, da Expo, e a seguir tirei o curso de Filologia portuguesa e a partir daí tornei-me professor numa escola de línguas. 


Porém, o que eu vou falar a partir de agora, neste vídeo, não é exatamente português, não é este português que eu estou a falar e o português que eu ensino nas aulas. Não. Seria o galego, o que eu vou falar é a variedade, digamos assim, do galego-português que se usa normalmente na rua na Galiza.


Bom, então o primeiro que penso que deve saber uma pessoa portuguesa é que o galego é uma língua diferente do castelhano que é usada ainda pela maior parte das pessoas galegas e é ensinada nas escolas. 


Da mesma maneira que, por exemplo, no outro extremo da Península Ibérica as pessoas para além de aprenderem espanhol também aprendem catalão, nas escolas, neste extremo ocidental da Península Ibérica as pessoas na escola para além de terem as suas 3 horas semanais de língua espanhola, pois também aprendem o galego. Uma cadeira completamente diferente do espanhol.


Então o que quero dizer com isto é que há quem pense que o galego e o português são a mesma língua, há quem pense que são línguas diferentes, mas no que não há nenhuma dúvida, no que há consenso absoluto é de que o galego não é a mesma língua que o castelhano.


Eu próprio antes de aprender muito mais sobre galego e talvez porque não sou do Norte para mim o galego sempre foi aquela língua que é meio caminho entre espanhol e português. Só agora é que eu começo a perceber que é muito mais para o português do que para o espanhol. 


No entanto, é verdade que o galego ao longo da sua história, e sobretudo mais recentemente, sofreu muito influência do castelhano e hoje em dia existem portanto duas correntes, não é? A corrente normativa do galego como o Estado espanhol devia desenvolver e a corrente reintegracionista, que vê o galego de outra forma, mais próximo do português e tu, enquanto presidente da AGAL, acho que és a melhor pessoa para explicar o que é que é o Reintegracionismo.


Bom, o Reintegracionismo são/somos as pessoas que, para evitar que o galego continue a perder força, porque tem vindo a perder muita força ao longo das últimas décadas, dos últimos séculos, entendem - entendemos, aliás - que a melhor estratégia para evitar que isso continue a acontecer é não cortar completamente o vínculo com o mundo lusófono e por isso, digamos que elaborámos uma estratégia para fazer convergir o nosso galego de novo com o português. 


Daí a palavra “reintegrar”, porque nós consideramos que já estava integrado, já fazia parte historicamente da mesma língua que o português. Não só porque o digamos nós, porque, enfim, a própria romanística tradicional na prática quer dizer que na escrita basicamente usamos o português, o português admite formas locais, mais português, e na fala também usamos o português como modelo de correção. 


Da mesma maneira, por exemplo, que faria o suiço-alemão em relação ao alemão padrão. O suiço-alemão depois fala a sua variedade do alemão. É uma variedade oral bastante mais distanciada do que o galego do português, do alemão standard que se fala do outro lado da raia, mas ele usa na língua escrita, basicamente, o modelo standard, o modelo padrão.


O Hochdeutsch. Exatamente.


Esta visão reintegracionista opõe-se à visão contrária que é a do Autonomismo, que é mais conhecida na rua por Isolacionismo, ainda que eu prefira não usar muito esta palavra porque tem certa carga depreciativa, que é oficial. Essa visão, Isolacionista não é a nossa, é a oficial ensinada nas escolas e a que se mostra atualmente na televisão, que usa como modelo a ortografia e gramática do castelhano.


Agora vamos à grande pergunta de hoje, que tu me vais ajudar. Um falante nativo de português como é que, com o mínimo esforço possível, transforma o seu português em galego? Em galego reintegrado porque é o mais próximo, que é para ser também o mais fácil.


Então começamos pela gramática, por exemplo. Na gramática um português para tornar o seu português mais galego, podemos dizer que fora certas exceções que vou falar agora podem manter praticamente tudo. É verdade que há palavras como, imagina, “sair”, “deus”, o infinito fraccionado “para o levar-mos”, ou o futuro do conjuntivo “quando o fizermos”; este tipo de formas no galego comum já não são usadas, não são usadas pelas pessoas comuns, mas isso não quer dizer que as pessoas não reconheçam estas formas como as autenticamente galegas. 


Por isso, podemos dizer que um português, se usar a sua gramática do português europeu, vai funcionar, mesmo que a pessoa com o seu interlocutor não use exatamente essas formas. Exceto, há... digamos, 3 exceções que podemos assinalar. Uma são os pronomes, uma é dentro do âmbito dos pronomes, os pronomes tónicos de sujeito, porque na Galiza mantemos todas as pessoas gramaticais. Mantemos o eu, o tu, o ele/ela, nós, vós e eles/elas.


Exatamente, muito bem.


Nós usamos o “vós”, mas nos dias de hoje o tratamento formal não tem praticamente consequências gramaticais para a maior parte das pessoas. Quer dizer, toda a gente trata e é tratada por “tu”, sem problema. Por “tu” e por “vós”. Existe o tratamento formal, que normalmente se faz como o castelhano com “usted/ustedes”, mas que já não é o natural para as novas gerações. 


As novas gerações normalmente usam e tratam todas as pessoas por “tu” e por “vós”: um conjunto de pessoas por “vós”, uma única pessoa por “tu”. Para a conjugação verbal de “vós”, aí temos sim temos uma forma muito específica galega que é que nós conjugamos as formas de mais de uma sílaba como se tivesse uma. 


Explico: Por exemplo o verbo “cantar”, que é um verbo que tem duas sílabas, a terminação, a desinência da segunda pessoa do plural é “não cantais”, no entanto, muitos verbos que só têm uma sílaba, como por exemplo “ler”, em vez de dizer “leis” dizes “ledes” com “-des”. Ou “ides”, ou “vedes” ou “tendes”, então nós tratamos os verbos que têm várias sílabas como se tivessem uma e todos acabam em “-des”, não em “-is”. Dizemos “cantades” igual que “ides” ou “vedes” igual a “comedes”, entendes?


E “vós sois” fica “vós sedes”?


Sim. Efetivamente. 


Depois, nos pronomes indefinidos, existe um pronome indefinido em português que é o “tudo”, a forma neutra, dessa série que tem o “todo, todos, toda, todas” e “tudo”; e esse “tudo” nós usamos exatamente igual a como se fosse masculino. Quer dizer, nós dizemos “todo o mundo” igual a dizermos “todo isso”, não dizemos “tudo isso”.

Ou seja, segue a lógica do espanhol que também usa “todo” dessa forma.


Depois, nos determinantes - continuando com a gramática que vai durar muito pouco - nos determinantes temos uma diferença assim muito emblemática para nós que é a contração da proposição “por”, que é igual em português só que em Portugal se pronuncia “por” e nós pronunciamos “pór”; essa proposição, contraída com os artigos, mantemos o “O”. Dizemos, “polo”, “pola”, “polos”, “polas”. “Eu vou pola estrada” não “eu vou pela estrada”.


Vocês usam o gerúndio?


Usamos dependendo de se é a costa ocidental ou não. Na costa ocidental usa-se como no português continental europeu e no resto do território como no Brasil.


E como em algumas partes de Portugal como o Alentejo, a Madeira ou os Açores que também usam mais o gerúndio.


Outra coisa que em geral consideramos emblemática galega em relação ao português comum é o numeral 2, que nós dizemos “dous”, como era também arcaico em Portugal, não? E também a palavra, semelhante a isso, a palavra “cousa” que nós não dizemos “coisa”, como atualmente em português.


Sim, basta ler português de há 2 ou 3 séculos e escrevia-se efetivamente “cousa”. Já agora, falando no “2”, vocês têm o “2” feminino? “Duas”?


Sim.


Ok, porque isto é uma coisa muito única do português que eu realmente não conheço outra língua que tenha um “2” feminino, o que confunde sempre quem está a aprender português. É bom ver que no galego também há.


Em relação aos advérbios, para continuar, temos o uso do advérbio “mui” que é uma redução do “muito”, do advérbio “muito”, que é comum ao castelhano. Normalmente na rua nós colocamos “mui” e não “muito”, diante de adjetivos. Por exemplo, dizemos diante de substantivos, dizemos “muito calor” mas diante de adjetivos dizemos “mui fácil”, mas depois, na gramática digamos que a área de principal dificuldade para um português que quiser aproximar-se do galego comum, seria a primeira e terceira pessoa dos verbos irregulares do pretérito perfeito simples. 


Vou-vos ler a primeira pessoa desses desses tempos verbais todos, desses verbos todos. A primeira pessoa do verbo “caber” seria: “coubem”, de “Dizer”, “dixem”, “estivem”, “figem”, “pugem”, “quigem”, “soubem”, “fum” quer para “Ser”, quer para “Ir” como dizias tu, “tivem”, “trouxen”; e a terceira pessoa seria: “coubo”, ”dixo”, “estivo”, “fijo”, “pujo”, “quijo”, “soubo”, “tivo”, “trouxo” e “véu”. Como vês são todas formas bastante diferentes ao português comum.


Pelo menos terceira pessoa do galego parece-me muito parecida com a do espanhol, não é? “Quizo”, “trajo”, com o “o” sempre, “puso”...


A maior parte da distância que existe entre o galego e o português atual é porque na Galiza se produziu um processo de convergência com o castelhano de regularização de formas verbais, etc... mas sempre em direção a confluir com o castelhano. E nós nem sempre temos que renunciar a isso porque é a nossa maneira de falar.


E na gramática tens mais alguma coisa?


Simplesmente salientar que nos pretéritos perfeitos para além destas diferenças nos irregulares que são as principais, nos verbos regulares também a primeira pessoa e a segunda pessoa não vão provocar problemas de compreensão porque são formas quase iguais, mas existe uma diferença muito emblemática que nós na Galiza metemos a consoante nasal onde vocês não metem. 


A primeira pessoa por exemplo, “eu comim”, “eu partim” para o verbo “comer” e “partir” e na segunda pessoa nós fazemos uma “africação” dum encontro consonântico que vocês não têm. Onde vocês dizem “comeste”, “partiste” nós dizemos “comiches”, “partiches”.


Ah isso eu já tinha reparado! Foi das coisas, quando oiço galego, isso é talvez a coisa que mais me salta como estranha porque o galego parece português com um sotaquezinho diferente e de repente esse “che” parece completamente outra coisa.


Bem, que teria que fazer um português para falar com um sotaque galego? Bom, aqui há um problema que o sotaque galego ou o meu sotaque ou o sotaque de cada vez mais pessoas novas, a verdade é que esse é um processo bastante reversível não só na Galiza se não para qualquer língua minorizada, cada vez mais os sotaques coincidem com os sotaques das linguas estatais. Isso não acontece só no caso galego. 


Se fores ver o basco falado no estado francês, tem um sotaque que qualquer ouvido alheio, qualquer ouvido externo identifica imediatamente como francês e o mesmo aconteceria ao contrário, se um francês ouve basco espanhol, ele vai identificar esse sotaque como espanhol. Digamos que eu vou explicar aqui como um português pode falar o meu galego, mas é um galego que assume, que coincide na maior parte dos traços com a pronúncia do castelhano atual.


Ok, vamos embora!


Quanto às consoantes não existem muitas diferenças, mas a principal diferença talvez seja o que mais chama a atenção na Galiza e o primeiro que teria que suprimir um português, que é o “R”. Um português para falar bom galego teria que voltar ao “r” tradicional português que é o que se ouve na verdade em muitas vilas portuguesas e muitas aldeias portuguesas. Dizer “garra” em vez de “garra”. Depois o seguinte é pronunciarmos sempre “B”. Não existe distinção entre “B” e “V”. Pronunciamos exatamente igual “burro” e “cabalo”. 


Em relação às consoantes, quase todos os problemas se concentram nas sibilantes, no “s” simples e no “s” duplo por um lado, e por outro lado o “c”, o “ç” e o “z”, que nós dizemos “c”, “c cedilhado” e “zeta”; todas essas letras nós podemos pronunciar tal como o vosso “s” ocidental que seria a pronúncia ocidental galega que ainda se conserva na nossa costa ocidental, que se pronunciasse todas essas grafias como “s” surdo sem fazer a distinção de “s” surdo e “s” sonoro ou fazer uma distinção que é pronunciar como “s” surdo o “s” e o duplo “s” e como interdental do castelhano o “c”, o “ç” e o “z”.


Portanto, ou escolhemos o caminho mais fácil que é desaparece o nosso “z” e desaparecem os nossos /ʃ/ e transforma-se tudo em /s/, ou então um pouco mais complicado que é o “ç” e o “z” e o “c” antes do “e” e do “i”, transformam-se em /f/ e o “s” e o “ss” ficam sempre /z/.


Por exemplo, as palavras que em Portugal seria assim: “cio”, “peça”, “dizer”, “vez”, “sapato”, “passar”, “três”, “piscina”; estas palavras poderiam ficar de duas maneiras: “cio”, “peça”, “dizer”, “vez”, “sapato”, “passar”, “três”, “piscina” - essa seria a fórmula mais fácil, que não chamaria a atenção a ninguém na Galiza. Em galego, aliás, é o que se considera mais tradicional. 


A outra possibilidade seria “cio”, “peça”, “dizer”, “vez”, “sapato”, “passar”, “três”, “piscina”, que já seria completamente confluente com o castelhano, obviamente por “castelhanismo”, não se pode ocultar isso.

Outra que eu também noto é outro consoante que é o “L”, que nós temos aquele “L” mais eslavo, o “dark L”, e vocês tem o “L” mais parecido ao castelhano.


Mais parecido ao castelhano mas a pronúncia tradicional galega é claramente esse “L” velar que vocês têm. “Mal”, “animal”... Essa era a pronúncia tradicional que as pessoas - por isso não vos digo nada para sobre rectificarem isso na tentativa de falar o nosso português da Galiza - porque as pessoas costumam identificar esse som, esse fonema, ainda com o galego mais tradicional. 


Outro que vale a pena fazer um esforço é no verbo “chamar”, por exemplo, nós fazemos uma africada onde vocês fazem uma fricativa. Onde vocês dizem “chamar” nós dizemos “chamar”. É igual com “chave”, etc... e pelo contrário, a pronúncia de “x”, por exemplo na palavra “caixa”, nós levamos a todas as grafias “x” e “j” em qualquer posição da frase ou em qualquer posição da palavra. 


Quer dizer, nós pronunciamos “gente” e “jeito” igual a “caixa” e portanto não podemos distinguir este “queixo” do laticínio (queijo).


Isso aí acho que é uma das coisas mais notórias para um português, do galego, é o “x” em todo lado. Onde nós muitas vezes escreveríamos um “j” ou um “g”, vocês escrevem “x” e pronunciam “x”. Passamos às vogais então?


As vogais... Bem, nas vogais o principal problema são as vogais átonas. A norma geral é que todas as vogais átonas se pronunciem, à partida, com o mesmo timbre que na posição tónica.


Ou seja, é abrir as vogais.


Sim, mas isso tem a sua armadilha não? É uma espécie de ratoeira porque mesmo assim, mantém-se bem mais relaxadas que no castelhano. É um problema que muitas vezes vejo nos portugueses a tentarem falar galego. Não é que haja muitos portugueses a tentarem falar galego mas quando tentam acontece isso.


Abrem demasiado.


Abrem demasiado. Esta pequena alteração de pronúncia não deve implicar modificar excessivamente a vossa própria pronúncia.

É ter mais atenção a pronunciar as vogais que normalmente cortaríamos. 


Para quem nos estiver a ver e que não domine tanto conceitos como vogais átonas, vogais tónicas, etc.., é: nós temos tendência a cortar muitas vogais. É não cortar. Não abrir demasiado para não exagerar mas simplesmente deixá-las. Em vez de ser “pequeno”, dizer “péqueno”.


Assim se faria na Galiza: “pequeno”, “país”, “conheço”. Na palavra “conheço” estás a ver que há dois “o” muito marcados que não chegam a ser “u” como no português, mas se um português disser “conheço”, não soa demasiado distante. Soaria muito mais distante: “conhéço”. Isto de pronunciar, de tentar pronunciar as vogais átonas tal como as escrevem vai funcionar bastante bem em todas as posições. 


Uma coisa que me parece interessante dizer para um português porque, por exemplo, “elemento”. Nós escrevemos “e” no início, pronunciamos “e”. Normalmente um português aí vai pronunciar com “e”. “Teatro”, nós escrevemos “e”, nós pronunciamos “e”. “Espanha”, nós escrevemos “e”, nós pronunciamos “e”. Normalmente o português vai dizer “tiatro”, “ixemplo”, “ilemento”, “ispanha”...


 Digamos que as átonas ficam praticamente iguais a como se escrevem sempre, não há exceções. Nas tónicas é praticamente tudo igual mas o que não temos, que é uma inovação do português, é a distinção de “a” aberto e “a” fechado. Fazemos todos os “a” como se fossem abertos.

Não há o “a”, é tudo “à”. Ou seja, “antes”, dirias “antes”.


Isso mesmo, assim soa perfeitamente galego. E depois nos ditongos nós mantemos igual ao português antigo e no português do norte, o ditongo “ei”, de “feira” e no ditongo “ou” de “ouro”.


O “ou” é sobretudo aquele que mais desaparece em todo Portugal exceto no Norte e vocês mantém. E agora, vamos então aos sons nasais que são muito característicos do português e do galego também.

Em primeiro lugar, temos as palavras acabadas em “ão”. “Canção”, “cão”, “irmão”, estas palavras que o português unifica numa só terminação, nós mantemos a diferença, mantemos a distinção antiga porque são palavras que provêm de substantivos que tinham 3 terminações na Idade Média. 


Em vez de ser “canção”, na Idade Média era “cançom”, em vez de ser “cão” era “cam”, “irmão” era o único que se mantém no português atual como na Idade Média. Havia essas três terminações que na Galiza mantemos. Dizemos, “cançom”, “cam” e “irmão”.


Mas escrevem diferente?


É um destes casos que na escrita do galego reintegrado podemos usar tal como em português ou admite-se a possibilidade de usar a variante galega. Podemos escrever “canção” com esse “ão” para confluir completamente com português que consideramos o nosso modelo de escrita ou escrever como na Idade Média, que era “om”; então teríamos de singular “cançom”, de plural “cançons”; de singular “cam”, de plural “cans”, de singular “irmão”, de plural “irmãos”.


Isso é o ditongo nasal “ão”, mas nós ainda temos o ditongo nasal “ãe” e “õe”.


Onde existem esses dois ditongos, no português atual é basicamente no plural das palavras que na Idade Média acabavam em “ão”, em “an” e em “on”; “canção/canções”, “alemão/alemães”, esse plural é onde vocês têm esses outros ditongos nasais, só que também os transferem à palavra “mãe”, por exemplo, ao verbo “pôr”, “põe” e também os transferem às terminações átonas terminadas em “em”, por exemplo “também” ou “Belém”.


Exato. E vocês como é que pronunciam essas outras palavras?


Então nós no galego mais tradicional, nos plurais “se assistia”/“se te vou assistir” e que ainda se conserva numa zona bastante pequenina da Galiza, “cães” ou “pões”, mas depois nas outras terminações de que falamos não. Dizemos “em” ou dizemos “mãe”, sem nasalar. “Mae” simplesmente, não dizemos “mãe” e nas terminações tipo “em”, “sem”, contém” ou nas terminações “am”, “guiam”, “cantam”, nessas terminações vocês deveriam lê-las - para falar à galega - igual ao que se escrevem.


Ou seja, “am”, “em”.


Sem juntar a boca, sem juntar os lábios, sem juntar a língua.


Ok, ou seja, sem formar o ditongo. Em vez de formar o ditongo “ãe”, “ão”, é só “em”, “am”.


Efetivamente.


E finalmente, tu tens aqui um texto para me pôr à prova para ver se eu consigo pôr em prática todos estes conselhos, sobretudo da parte fonética de transformar o meu português em galego, não é?


Sim, este texto é praticamente o primeiro livro que eu li em português, que era uma tradução dum livro espanhol de Emília Pardo Bazán, que se chamava - que se chamava não, que se chama - “Os Paços de Ulloa”, e foi o primeiro livro em português que eu li. E então, este é o primeiro parágrafo do livro e por isso escolhi este parágrafo.


“Por mais que o cavaleiro tentasse refreá-lo, agarrando-se com todas as suas forças à única rédea da montada e sussurrando palavras mansas e tranquilizantes, o peludo Rocim continuava a empenhar-se em descer a encosta a um trote sem jeito que revolvia aos intestinos quando não em saltos desigualíssemos de louco galope.”


Muito bem! O único, que na Galiza, embora muita gente pronuncie “e”, a conjunção, igual ao português ou que se considere a pronúncia correta, “é” - sabes aquilo que te disse que as vogais átonas se mantém exatamente igual a como se escrevem? - pois esta é uma delas. Então, lê-se, “rédea da montada “é” sussurando palavras mansas” e “tranquilizantes” não se lê o “u”, mas isto digamos que não podemos elaborar uma regra. Nessa palavra concretamente nós não temos esse “u”.


Queres ler tu agora para se ver a diferença?


Pois bem, o meu galego, está bem?


“Por mais que o cavaleiro tentasse refreá-lo, agarrando-se com todas as suas forças à única rédea da montada e sussurrando palavras mansas e tranquilizantes, o peludo Rocim continuava a empenhar-se em descer a encosta a um trote sem jeito que revolvia aos intestinos quando não em saltos desigualíssemos de louco galope.” Ficou mais ao menos igual.


Tu tens mais aquela cantiga galega.


É, mas sabes que essa canção só tu estando uns meses aqui é que se vai modificar.


Só assim é que se apanha a cadência, que é muito característico do galego também. Já começo a notar, tem muito aquela... uma certa cantilena.


O que nós mostrámos com este exemplo também, é em que medida o galego é uma variedade do português, porque efetivamente nós temos diferentes sotaques, diferentes pronúncias, temos algumas terminações verbais diferentes, temos algumas marcas muito específicas, mas nós entendemos que a escrita do português pode representar perfeitamente as nossas falas.


Espero que tenham gostado desta entrevista com o Eduardo. Se quiserem saber mais sobre o seu trabalho com a AGAL ou obter mais informações sobre a língua galega, vão visitar o portal galego da língua cujo link está na descrição. 


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Muito obrigado e até à próxima.