Ep. 66 - Sotaque e expressões de Trás-os-Montes

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Ep. 66 - Sotaque e expressões de Trás-os-Montes
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No episódio de hoje exploro as características do sotaque transmontano e tento adivinhar palavras típicas de Trás-os-Montes com o Rui do canal UKnow Rui.


TRANSCRIÇÃO


Olá a todos e bem vindos de volta ao Portuguese With Leo. 


Hoje trago-vos mais um episódio sobre sotaques. Desta vez, um sotaque muito requisitado mas que ainda não apareceu aqui no canal, que é o sotaque transmontano.


Tenho aqui o Rui.


Olá a todos!


Da cidade de...


Chaves


“Chabes”... Ou “tchabes”.


O Rui tem um canal de youtube chamado “UKnow Rui”.


Exatamente.


Mas não é em inglês, é em português. E o que é que tu fazes no teu canal?


Olha, no meu canal faço “sketches” cómicos sobre assuntos que me interessam que é futebol, música, gosto muito de música, e às vezes política mas política é...


É um tema sensível... Link na descrição, vão dar uma olhadela ao canal do Rui. Hoje, como de costume, vamos explorar o sotaque transmontano. Depois, tu tens aí umas palavrinhas para eu tentar adivinhar e umas expressões típicas de Chaves ou Trás-os-Montes no geral, imagino. 

E, uma coisa que eu não estava à espera - muito obrigado, Rui - trouxeste aí umas coisas típicas de Trás-os-Montes. Trouxeste aí uma bela lancheira cheia de produtos regionais.


Antes de passarmos ao sotaque transmontano, vamos começar com algumas informações sobre Chaves. Chaves é uma cidade antiga do tempo dos romanos que nesse tempo, na altura dos romanos, se chamava Aquae Flaviae.


Exatamente! Aquae Flaviae vem do imperador Titus Flavius Vespasianus.


E para além desse imperador, há outro imperador cujo nome também existe em Chaves, não é? No monumento mais emblemático que é o...


É a Ponte de Trajano, a chamada Ponte Romana.


Exato. Que outro património romano é que há em Chaves?


Em Chaves há as termas romanas, é também um património importante que foram descobertas recentemente. Quando eu digo recentemente, digo cerca de 2008/2009 e estão a ser neste momento recuperadas para mais tarde transformar-se num museu e poder ser visitado pela população do exterior.


E que mais é que há a dizer sobre Chaves?


Gastronomia boa.


Gastronomia boa.


Se vocês forem a Trás-os-Montes o que não pode faltar é boa comida.


E o que é que tu recomendas? Se alguém for ali a “Atrás doS Montes”, o que é que eles comem?


Olha, recomendo uma boa feijoada à transmontana e um bacalhau à transmontana. Isto são pratos típicos mas que eu até nem aprecio muito, mas aquilo que eu tenho a certeza que aprecio, como bom transmontano, são os chamados enchidos, alheira, chouriça, salpicão e os folares tradicionais, folar de carne, folar de osso, a bola de carne...


Vamos então ao sotaque transmontano. Quais é que são assim as características principais.


Então, é o trocar o V pelo B.


Típico dos sotaques do Norte, não é?


Exatamente! Era isso que eu ia dizer. Típico do Norte... o vento passa a “bento”, no popular. Chaves.

Chaves. “Tchabes”... Metes o -tch e ainda tem o -B pelo -V.


Exatamente. Eu digo Chaves tu dizes “Chabes”, assim mais... Não é um -B forte mas é um ligeiro -B e depois, o pessoal mais das aldeias e pessoal mais velho diz...


“Tchabes”...


Ou seja beber um chá é um “tchá”


Uma passa a “Uã”, “nenhuã”. Nas aldeias. Eu não digo assim.


É bue engraçado porque isso é exatamente o sotaque Galego.


Ya.


E se calhar, como é que vocês acabam as palavras em -ão?


Em -ão? Cão... Acho que é normal.


Não há “õn”...


Não, eu acho que isso é mais o sotaque tradicional do Porto talvez. Assim o -ão...


Depois uma coisa típica no Porto e se calhar em Braga também e outros sotaques do Norte se calhar mais noroeste, é que eles abrem mais as vogais, não é?


Nós não, nós fechamos e aliás, por exemplo, vermelho tu dirias “vermalho” em Lisboa, eu digo “vermelho”.


Ah ok, exatamente.


Coelho, que é o meu apelido...


Coelho.


Ainda nas vogais, uma coisa que é típica do Norte, que é o português original, é pronunciar os ditongos todos, incluíndo o ditongo -ou, que nós em Lisboa e no sul todo e aventurar-me-ia a dizer que até em Coimbra e nas Ilhas certamente, dizemos -ou. Como se fosse um -O fechado e vocês dizem...


Nós dizemos “Ou”. “Isto ou aquilo”.


Portanto este já é mais do Norte todo. Depois eu reparei que tu a ligares palavras que acabam em -S com palavras que começam em vogal fazes a ligação com o -J, /ʒ/.


Exatamente, que ao contrário do Sul, que é com -z.


Do Sul e de outras partes do Norte.


Ah não sabia...


Sim, sim, sim, aliás aí é mais espalhado. Aliás! No Sul não, desculpa! No Algarve fazem assim também. É muito espalhado, ou seja, eu sei que em São Miguel fazem assim. No Algarve é das coisas que eu noto logo quando oiço alguém do Algarve, é logo aquele /ʒ/, “tájaver?”. “Ajoras” (as horas), “vamos pásjaulas” (vamos para as aulas)...


Depois eu acho que no Litoral se calhar faz-se menos, mas sei que em Coimbra, eu tenho um amigo de Coimbra, e a ele ás vezes sai-lhe, outras vezes não... é assim meio misturado.


Outra coisa que nós fazemos também é substituir o “eles” por “eis”. Nas aldeias costuma-se dizer em vez de “Eles estão ali”, “Eis estão ali”.


E tu disseste “Eis estão ali” mas há uma versão mais transmontana ainda que é...


Em vez de “ali ao fundo”, nós dizemos “além”. Ou seja, aqui, ali, além.


Isto aqui, obviamente que é uma palavra que existe e que em Portugal se conhece e toda a gente conhece, mas não é muito usada neste contexto, assim... pelo menos em Lisboa e noutras cidades, usar “além” no contexto coloquial em vez de dizer “ali”, é mais raro.


Sim, aliás eu quando vim para o Porto estudar uma das vezes estava a falar com colegas da universidade e disse “além” e fui logo motivo de chacota.


Por falar em situações dessas, também... O “vós”, se tu usares o “vós” o pessoal olha para ti tipo... “Senhora Condessa... Vamos falar de uma forma assim...”


É muito altivo.


É muito altivo, vós, parece que voltámos ao tempo dos reis... Vocês usam o “vós” naturalmente, ou não?


Sim, sim. Eu pelo menos sinto essa dificuldade, ás vezes, de misturar um pouco o “vós” com o “vocês”. Ás vezes misturamos um bocadinho, “vocês sabéis”. Vai ali assim um bocadinho misturado.


Mas a conjugação é “vós”.


Sim o tradicional acho que é mesmo o “vós”. O tradicional transmontano... O “vocês” já é ali uma adaptação mais recente, mais moderna.


Por influência também da televisão...


Exatamente.


Vamos lá! A parte divertida.


São bastantes palavras, que eu acho que és capaz de acertar nem em uma.


Ok, bora!


Ora vamos lá. Vamos começar com uma bastante usada: arrebunhar.


Abrunhar?


Arrebunhar!


Não sei...


Arrebunhar é arranhar...


Ok... Está bem... Faz sentido. É uma palavra muito onomatopeica.


É mais sensual dizer “arrebunhei-te”.


É um contexto diferente.


É. Arranhei-te é muito morno. Arrebunhei-te é mais à Norte, mais forte. E um cibo? O que é um cibo?


O que é um cibo?


Eu já te dou uma dica a seguir. Tenta pensar um bocadinho...


C-I-B-O?


C-I-B-O. 


Sabes que isso é comida em italiano? Cibo. É comida?


Olha! Pensa por aí!


Ah! É comida?


Não é uma comida mas tem a ver com comida. Ou seja, não tem só a ver com comida, mas pode ser enquadrada e a maior parte das vezes é na comida que se enquadra. Tipo “um cibo de pão”.


Ah, um bocado?


Exatamente, um bocado de pão.


Mas pode ser um...


Um cibo de lenha, um bocado de lenha. Aí já digo “lanha” não digo “lenha”. Larpar. Larpar acho que sabes. Esta aqui tens que saber.


Larpar eu penso em larapiar.


Não. Tem a ver com o que falamos ainda agora.


Larapiar é roubar então larpar deve ser comer tudo.


Larpar é ...


Comer assim como um animal.


Larpar tudo. Comer como um abade. Também se diz isso em Trás-os-Montes. Não tenho aqui mas também é uma expressão. Ou comer como um padre. Nós até utilizamos mais o “comer como um padre”.


Os clérigos em Trás-os-Montes comiam/comem muito.


Comiam e comem, graças a Deus. Ora bem, tenho aqui outra para ti que é baraço. Não é embaraço, é baraço!


Eu sei o que isso é! E o mais engraçado é que eu não sabia o que isto é e aprendi por causa de um vídeo que o meu amigo Davide do canal Podcast Italiano, não tem nada a ver com Portugal... Fez um video sobre semelhanças entre português e espanhol. Nesse video eles foram buscar essa palavra para falar de embaraçoso, que depois em espanhol estar “embarazada” é estar grávida. Então foram buscar e parece que é uma corda, baraço.


Exatamente! É um fio, uma corda... Empelouricar.


“EmpelOu” ou “empelEu”? Empelouricar...


“Estás aí empelouricado!”


É estar empoleirado em alguma coisa?


Exatamente! Muito bem! Albarda.


Albarda é... Fónix... Albarda. Isso é uma palavra que eu reconheço de ler romances passados em tempos medievais, mas a alabarda ou é onde metes a espada ou é aquela cena que eles levavam no cavalo com as malas.


É! Aliás nós usamos uma expressão curiosa que já usa o meu pai muitas vezes comigo que é “para burro só te falta a albarda!”. Virolho, que já te expliquei há bocado o que era...


Não, tu há bocado mencionaste mas não explicaste. Virolho não é um vesgo?


É! É uma pessoa que tem um olho para a China e outro para o Japão. Um olho contra o governo... Tens depois uma coisa que é surro.


Surro.


Exatamente. Isto não é bom... Ter surro não é bom.


Ter surro não é bom?


Já é uma pista...


Bem, há muita coisa que não é boa. É tipo alguma doença?


Não, não é uma doença mas é algo que tens no corpo.


Ah... será que é sarna? É parecido, surro, sarda...


Quando eu te perguntei já sabia que ias dizer isso mas não. Surro tem a ver com o facto de não tomares banho.


Hmm! É ter aquela camadinha de sujidade, ter surro.


Ter o sebo.


Ter o sebo! Exatamente! Aquele “grime”. Passas a mão e...


Se calhar é melhor tomar banho... E depois tens aqui uma expressão que é - “Tensjaqui” com J... - uma expressão que é “Ir para a palha”.


Ir para a palha é ir dormir.


Exatamente. Muito fácil!


Porquê? Porque eu penso “Trás-os-Montes, assim mais campestre, gado...”


Sim, muito gado...


E certamente há uns 100 anos, talvez até menos, há pessoal a dormir na palha, se for preciso.


Ah sim! Com certeza!


E como em Trás-os-Montes não pode faltar boa comida, eu trouxe aqui para o Leo... Trouxe-te aqui congelados, porque tu és de longe e tens que levar isto congelado...


Obrigado!


Uns bons pastéis de Chaves... Os pastéis de Chaves é um folhado de carne, de vitela normalmente, com poucas especiarias, salsa talvez, quanto muito... Agora tem que vir um bom fumeiro... Só não te trouxe folares porque a minha avó não tinha porque não estamos em época de folares...


Eu perdoo a tua avó. Ui... Portanto, vamos começar com este, que é um...


Isso é uma chouriça!


Portanto, isto é uma bela de uma alheira.


Exatamente.


Este aqui, com um aspeto mais fálico...


Mais robusto... Fálico também...


Isto aqui é um salpicão.


Exatamente.


Epah obrigadão meu, a sério!


De nada! Ora essa!


Isto é que eu não estava nada à espera.


Ah! Temos que ser bons a receber! Se há coisas característica da gente dos Trás-os-Montes é saber receber.


Estamos de volta dois dias mais tarde porque houve umas partes do video que se perderam... houve ali uns problemas com a câmera e portanto houve umas palavrinhas transmontanas que ficaram por explicar.


A primeira palavra transmontana que faltou dizer foi amarrar.


Amarrar, que uma pessoa pensaria que é amarrar, dar um nó, amarrar alguma coisa, prender alguma coisa com um cordel, mas ao que parece, e esta eu não adivinhei, significa:


Agachar ou baixar-se para apanhar algo.


Exatamente. Amarra-te aí.


Exatamente. Depois temos aqui a palavra chuço. Escreve-se chuço mas lê-se “tchuço”.


E esta aqui eu adivinhei porque eu fiz um video sobre o sotaque de Braga. Quando fiz esse video eu não a conhecia, depois aprendi que é o quê? Que é um guarda-chuva. Não vou abrir porque em Portugal somos um pouco supersticiosos e abrir um guarda-chuva num espaço fechado dá azar.


Guicho.


Guicho... Que também não acertei e agora já sei o que é e ao que parece é um gajo fino, é um gajo chico-esperto, um gajo assim meio manhoso... Outras questões que ficaram de mencionar já da parte fonética do sotaque transmontano foi a pronúncia do -i átono. Em Lisboa e acho que mais no sul do país, na metade sul, nós não pronunciamos o som /i/ em palavras como piscina ou o nome Filipe. Que é o teu segundo nome.


Exatamente, é o meu segundo nome.


Portanto, eu digo Rui Flipe e tu como dizes o teu segundo nome?


Rui Filipe.


E a palavra piscina que eu disse? Eu digo o SCI ou pronuncio como se fosse um CH, /ʃ/. “Pchina”, mas tu pronuncias o SC distintamente.


Exatamente, piscina!


Tu tinhas um vinho do Porto que querias ter trazido e tinhas te esquecido no entanto, hoje...


Hoje já cá está!


O que é que temos aqui?


Temos aqui duas garrafas de vinho do Porto.


Uau!


E as pessoas devem-se estar a perguntar porquê vinho do Porto...?


... se tu és de Trás-os-Montes/Chaves?


Porque o vinho é produzido na Régua, no Alto Douro Vinhateiro, que é uma região que faz parte de Trás-os-Montes .


Para acabar, quero agradecer aos meus Patrons, que me apoiam todos os meses e convidar aqueles de vocês que quiserem apoiar este podcast a juntarem-se ao Patreon onde terão acesso a conteudos exclusivos tais como conversas completas com os convidados como é o caso de esta aqui com o Rui. Há muita coisa que não apareceu aqui no episódio final.


Um abraço e até para a semana!