Ep. 62 - Como aprender uma língua nova em 2022

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Ep. 62 - Como aprender uma língua nova em 2022
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Ano novo, vida nova! Aprender uma língua nova é uma das resoluções de ano novo mais comuns, e este episódio é um guia para te ajudar a aprender uma língua nova desde o zero!


TRANSCRIÇÃO


Olá e bem-vindo de volta ao Portuguese With Leo!

No episódio de hoje quero explicar-te qual é que é, na minha opinião, a melhor estratégia para aprender uma língua nova da forma mais rápida, eficaz e natural possível.


Antes de entrarmos na minha estratégia para aprender línguas, temos de perceber como é que funciona uma língua.


Sem querer ser demasiado técnico (até porque não sou especialista em linguística), uma língua é basicamente aquilo que nós, seres humanos, usamos para comunicar, e podemos dividir essa comunicação em 2 vertentes: compreensão e produção.


A compreensão é a vertente passiva da língua, é a capacidade de percebermos aquilo que ouvimos ou lemos, o input. A produção é a vertente ativa, é quando nós produzimos a língua, o output, e mais uma vez pode ser oral, quando falamos, ou escrita, quando escrevemos.


Destas duas, a compreensão é o mais importante e deve ser o nosso foco principal, pelo menos no início. É possível compreender uma língua sem a falar muito bem, mas é impossível falar uma língua sem a compreender.


Como é que melhoramos então a nossa compreensão? Estando expostos à língua.


Não há outra forma, se queremos aprender uma língua, a primeira coisa que temos de fazer desde o início é estar expostos a essa língua, tanto na sua forma oral como na sua forma escrita, idealmente todos os dias, nem que seja só 10 minutinhos por dia.


Portanto, o primeiro passo a dar quando começamos a aprender uma língua é encontrar bons materiais que nos permitam ouvir e ler nessa língua. Quando digo materiais, estou a falar de qualquer coisa que possas  imaginar, desde livros e blogs a filmes, séries, vídeos de YouTube, podcasts ou até música.


Só há um requisito: temos de encontrar materiais de que gostemos e que nos motivem. Se nós queremos aprender uma língua mas não encontramos vídeos nem podcasts de que gostamos e que nos entretenha, se tudo o que encontrarmos for aborrecido, então vamos perder a motivação e pouco a pouco vamos abandonar a aprendizagem da língua.


Isto significa que no início é preciso perder algum tempo a fazer alguma pesquisa e alguma tentativa e erro até encontrarmos um ou dois canais de YouTube e podcasts e artistas musicais e filmes ou séries de que gostemos.


E acredita que vale a pena, porque quando finalmente encontramos conteúdo na nossa língua-alvo que gostamos realmente, depois não conseguimos parar de consumir esse conteúdo e é aí que o verdadeiro progresso na língua acontece!


Ok, temos de encontrar conteúdos que nos entusiasmem e depois é só ouvir e ler esses conteúdos e aprendemos a língua, certo?


Não exatamente! Existe um segundo requisito que os nossos materiais de estudo têm de cumprir (eu sei que disse que só havia um requisito, que era eles serem interessantes, mas afinal há 2).


O segundo requisito é que os materiais e conteúdos que utilizamos sejam de um nível apenas ligeiramente superior ao nosso nível da língua, de modo a que sejam desafiantes e nos façam progredir, mas não sejam demasiado difíceis ao ponto de nos fazerem perder o interesse e desmotivar.


Um exemplo que ilustra bem isto é o Duolingo. O Duolingo é uma aplicação ótima nas primeiras semanas ou até meses de aprendizagem de uma língua porque é fácil e está desenhado para nos manter motivados e agarrados ao telemóvel.


No entanto, depois de algum tempo, quando já fizemos algum progresso, torna-se demasiado fácil e até pode ser contraproducente, porque dedicamos todo o nosso tempo de aprendizagem da língua a jogar no Duolingo e achamos que estamos a ser produtivos e a progredir, quando na verdade só estamos a aprender novas formas de dizer que a maçã é vermelha.


O outro extremo é quando usamos materiais demasiado difíceis para o nosso nível, e como não percebemos nada, ou quase nada, rapidamente nos desinteressamos. Experimenta ver um filme sem legendas numa língua que não conheças e vais perceber o que eu estou a dizer.


Isto significa então que quando começamos a aprender uma língua temos de dar primazia a conteúdos mais básicos em que se fale mais devagar, e ir aumentando a dificuldade e complexidade à medida que vamos melhorando.


Uma recomendação aqui é tentar encontrar vários tipos de materiais diferentes, para não nos “cansarmos” de estar sempre a ver e ouvir a mesma coisa.


Procura não só podcasts e canais de Youtube focados no ensino da língua que queres aprender, mas também artistas e playlists musicais no YouTube ou no Spotify para poderes estar exposto à língua enquanto relaxas e ouves música, mesmo que não percebas quase nada do que está a ser dito.


Procura também uma boa série e bons filmes na tua língua-alvo para veres com legendas na tua língua materna, ou então até filmes de animação, por exemplo da Pixar ou da Disney, que normalmente estão disponíveis em todas as línguas e mais algumas, e normalmente os diálogos são mais simples e a dicção e os sotaques são mais neutros.


E depois de encontrares tudo isto, é só ouvir e ouvir e ouvir e ler e ouvir e ler e ouvir e ler e ouvir e ouvir esta nova língua que estás a aprender. Idealmente todos os dias, pelo menos 10 minutos. 


Normalmente, quando os materiais são interessantes, estes 10 minutos acabam por se transformar em 20 minutos, depois meia hora, depois uma hora e por aí adiante.


E pronto, já vimos tudo aquilo que temos de fazer para começar a aprender a nossa nova língua e melhorar a nossa compreensão.


Tal como eu disse no início, para além da compreensão existe ainda a vertente da produção, o output, que é quando somos capazes de produzir discurso oral ou escrito numa língua.


Esta é a parte mais difícil e é o desafio da maior parte das pessoas: falar.


É relativamente fácil expor-nos à língua que queremos aprender através de música, vídeos e podcasts no conforto do nosso lar, e é uma coisa completamente diferente falar esta língua com pessoas verdadeiras de carne e osso, que nos julgam e nos corrigem.


Mas é precisamente ao superar este desconforto e ao fazer um esforço para falar e escrever na nossa língua-alvo, que progredimos.


Qual é então a melhor estratégia para aprender a falar uma língua estrangeira?


O primeiro passo para o fazer é aprender vocabulário, e aqui temos de nos guiar pelo famoso Princípio de Pareto, ou Regra 80/20!


Basicamente a regra 80/20 diz que no mundo, na natureza, na vida, na produtividade, 20% das causas originam 80% dos resultados. Ou seja, um número pequeno de fatores origina um número desproporcionalmente grande de resultados e de consequências.


Talvez no futuro faça um episódio só sobre este princípio, porque é muito interessante, mas se quiseres estudá-lo mais a fundo recomendo o livro “O Princípio 80/20” de Richard Koch.


Voltando à aprendizagem de línguas, este princípio é muito importante porque se pensarmos bem, se analisarmos o nosso dia a dia e a forma como utilizamos a nossa língua materna, existem algumas centenas de palavras, que são responsáveis pela grande maioria das situações em que usamos a língua e das conversas que temos (os tais 80%).


Alguns exemplos são palavras como “sim”, “não”, “olá”, “obrigado”, ou os artigos definidos “o”, ”a”, “os”, e “as”. É praticamente impossível falar português sem utilizar estas palavras, no entanto podemos passar uma vida inteira sem dizer a palavra “bucólico” ou “estrepitosamente”.


Acho que já percebeste onde é que quero chegar com isto: a melhor estratégia para começar a aprender vocabulário é aprender as palavras mais utilizadas.


Na internet existem muitas listas das palavras mais comuns em várias línguas, e se estiveres a aprender português, eu tenho no meu website um pdf muito bonito com as 1000 palavras mais utilizadas em português europeu, divididas por classe de palavras e com explicações gramaticais sobre cada classe e como é que se utilizam as palavras de cada classe.


O pdf é grátis e o link para o descarregar está na descrição!


Obviamente, pessoas diferentes usam palavras diferentes no seu dia a dia. Eu faço vídeos no YouTube e portanto uso muito palavras como “câmara” e “microfone”, mas um agricultor, se calhar, usa no seu dia a dia palavras que eu utilizei 1 vez na vida, como "enxada" ou “ancinho”.


Por isso, para além de procurares na internet listas das palavras mais comuns na língua que estás a aprender, sugiro que analises também o teu próprio dia a dia, para perceberes quais é que são as palavras que mais usas ou os tópicos de que mais falas e construíres a tua própria lista de palavras mais comuns.


Na verdade existe um excelente exercício para fazer isto, que é basicamente a forma mais eficaz de aprender a falar uma língua rapidamente, mas vou falar dela mais à frente.


Primeiro quero também mostrar-te como o princípio 80/20 se aplica no estudo da gramática, nomeadamente na conjugação de verbos.


Usando a língua portuguesa como exemplo, existem quase 20 tempos e modos verbais, mas a verdade é que só precisamos de 4 ou 5 desses tempos em 80% das nossas conversas do dia a dia.


Se soubermos o presente, pretérito perfeito, pretérito imperfeito e o imperativo conseguimos comunicar na maior parte das situações.


E depois, lentamente, à medida que vamos melhorando a nossa compreensão da língua, podemos aventurar-nos então com o condicional e os 3 tempos do conjuntivo.


Para além disso, tenho ainda uma estratégia que vai revolucionar completamente a tua forma de aprender a conjugar verbos! Estás pronto? É estudá-los na horizontal em vez de na vertical.


O que é que eu quero dizer com isto?

A forma tradicional de estudar conjugações verbais é aprendendo um verbo e um tempo verbal de cada vez em todas as pessoas verbais.


Ou seja, ficamos com umas colunazinhas verticais e temos de memorizar “eu sou, tu és, ele é, nós somos”, etc, antes de passar para o próximo verbo ou para o próximo tempo verbal.


Isto pode parecer muito bonito e ficar muito arrumadinho numa folha de papel, mas se pensares bem, vai contra a nossa forma de pensar e de falar.


Quando falamos, nós não formamos frases com um só verbo em todas as pessoas verbais. Dizer “Eu estou em casa, tu estás na escola, o João está no trabalho, nós estamos felizes, vocês estão tristes” não é uma frase muito natural.


A nossa forma natural de falar é fazendo frases com vários verbos diferentes num ou 2 tempos verbais e numa ou duas pessoas verbais. Por exemplo:


“Eu estou muito contente porque hoje faz bom tempo e dá para ir à praia”.


Nesta frase usei 3 verbos diferentes no presente e em 2 pessoas verbais: a 1ª e a 3ª pessoa.


E é seguindo esta lógica que temos de estudar as conjugações dos verbos: pegamos nos 10 verbos mais usados da nossa língua alvo, e em vez de aprendermos a conjugá-los de cima para baixo, vamos da esquerda para a direita, e aprendemos a conjugar todos estes verbos na 1ª pessoa do singular nos 2 ou 3 tempos verbais mais comuns.


E só depois é que passamos para os 10 verbos seguintes. E só depois de termos aprendido uns 50 verbos desta forma na 1ª pessoa do singular é que passamos para a 3ª pessoa do singular, mesma coisa, depois a 2ª pessoa do singular, mesma coisa, e só aí é que passamos então para as pessoas do plural.


Isto permite-nos não só começar a formar frases com os verbos logo desde o início, e frases que façam sentido, como também nos permite aprender os padrões de conjugação mais facilmente e de forma mais intuitiva.


Ou seja, temos de estudar o vocabulário e a gramática de uma forma estratégica e que siga os padrões naturais da fala. E agora vou explicar-te então o tal exercício que te vai obrigar a pôr todos estes conceitos em prática de forma intensa.


Atenção: este exercício não fui eu que o inventei e o crédito vai todo para o canal Language Lords cujo link está na descrição para poderes ver os vídeos originais onde o rapaz explica, em detalhe, este exercício. Aqui vou só fazer um breve resumo.


Basicamente, o exercício é filmares-te a contar uma história na tua língua-alvo durante 5 minutos. Tem de ser uma história pessoal sobre ti, uma história que conheças bem e uma história que contes com frequência.


Se for preciso, conta a história em voz alta uma vez na tua língua materna para organizares os teus pensamentos.


Depois de teres escolhido e revisto mentalmente a história, filma-te a contá-la durante 5 minutos na tua língua-alvo. Sempre que chegares a uma palavra que não conheces, não te bloqueies, diz a palavra na tua língua materna e continua com a história.


Também vão haver ocasiões em que vais ter dúvidas sobre a estrutura de uma frase. Sempre que isto acontecer, diz a frase na forma que achas que é correta na tua língua-alvo e depois volta a dizê-la na tua língua materna e continua com a história.


Depois dos 5 minutos aquilo que tens de fazer é ouvir a gravação e pesquisar e traduzir todas as palavras que não conhecias e frases de que não tinhas a certeza. Sugiro que uses o DeepL, que é um tradutor muito bom que permite traduzir frases inteiras.


Depois de teres escrito e procurado a tradução de todas as palavras e frases que não conhecias, voltas a fazer a mesma coisa, filmas-te durante mais 5 minutos a contar a história pela segunda vez, sem consultar a lista de palavras que acabaste de escrever.


De seguida voltas a fazer a mesma coisa: ouves a segunda gravação da história e anotas todas as palavras e estruturas de frases que não conhecias, e as suas traduções, e depois voltas a fazer tudo uma terceira vez.


Este método é difícil, é desconfortável, sobretudo no início, mas só traz vantagens porque vai-te obrigar a falares na tua língua-alvo, vai-te obrigar a seguir o princípio 80/20 e a usares as palavras e conjugações verbais mais utilizadas e mais comuns, e vai-te dar muita motivação, porque vais notar uma clara melhoria cada vez que contares uma história nova, da primeira vez que a contas para a terceira vez que a contas. E isso, motiva.


Experimenta fazer isto com uma história diferente todos os dias, ou a cada dois dias, e vais ver que vais progredir muito rapidamente.


Portanto, para resumir a minha estratégia para aprender uma língua nova:


Temos de estar expostos à língua de forma consistente e a um nível de dificuldade ligeiramente superior ao nosso para aumentar progressivamente a nossa compreensão. Para isso, temos de encontrar conteúdos que nos interessem e que nos mantenham motivados.


Ao mesmo tempo que fazemos isso, temos de ser proativos e estratégicos na aprendizagem de vocabulário e estudo da gramática para aprender aqueles 20% da língua que vamos usar em 80% das situações.


Para acelerar esta aprendizagem do vocabulário e a nossa capacidade de falar a língua, temos de usar este exercício do canal Language Lords, que eu acabei de explicar.


Até agora, todos os métodos que eu expliquei são coisas que podemos fazer sozinhos, em casa, com uma ligação à Internet. No entanto, não posso deixar de falar da utilidade de ter um parceiro de conversa.


Claro que o ideal é vivermos no país da língua que estamos a aprender e sair à rua e estar rodeados dessa língua, vê-la por todo o lado em cartazes e ouvi-la na televisão e na rádio, ir a um supermercado e estar tudo nessa língua…


Mas para aqueles de nós que não vivem no país da língua que estão a aprender, ainda assim, há uma solução.


Basta encontrar parceiros de conversa com quem façamos um intercâmbio de língua: nós ensinamos-lhes a nossa língua e eles ensinam-nos a deles, ou então, para os que podem pagar um pouco mais, arranjar um tutor pessoal.


Para isto, podemos usar aplicações como “italki”, “Tandem” ou então procurar grupos de intercâmbios de línguas no Facebook.


O que não falta são grupos de pessoas que falam a língua que nós queremos aprender a viver no nosso país ou num país que fala a nossa língua.


Ter um parceiro de língua é muito útil porque permite-nos ter feedback sobre o nosso progresso e permite-nos ter também alguém que corrija aqueles erros e aquelas incertezas que nós não conseguimos encontrar a resposta em lado nenhum na internet.


A minha sugestão é que cada vez que fizeres o exercício das histórias de 5 minutos do canal Language Lords, envies o vídeo final para o teu parceiro de línguas para ele poder corrigir-te e dizer onde é que ainda tens falhas.


Espero que tenhas gostado deste episódio e que te sirva de guia para a próxima língua que queiras aprender, seja ela português ou qualquer outra!


Se estiveres a aprender português, quero recordar-te que podes descarregar o guia das 1000 Palavras Mais Comuns em português seguindo o link na descrição, e como sempre, quero agradecer aos meus Patrons o seu apoio contínuo, todos os meses.


A partir de agora vou criar um podcast mensal exclusivo para os Patrons de nível Bacalhau à Brás ou superior, e o primeiro episódio vai ser precisamente sobre o tema de hoje. Vou falar um pouco mais a fundo sobre os métodos e estratégias que implemento no meu dia a dia para me imergir completamente na língua ou línguas que quero aprender ou melhorar.


O link para o Patreon também está na descrição, por isso vão lá dar uma olhadela e até à próxima!