Ep. 57 - Sotaque e expressões de Braga

Ep. 57 - Sotaque e expressões de Braga
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Neste episódio aprendemos algumas palavras e expressões típicas de Braga, bem como o que é que torna o sotaque bracarense tão único.

TRANSCRIÇÃO:

Olá a todos, e bem-vindos de volta ao Portuguese with Leo!

 

Hoje trago-vos mais um vídeo de sotaques, desta vez é o sotaque do Norte. Já fizemos o Porto... E agora, vamos fazer Braga. O meu amigo Miguel, muito de vocês vão reconhecer a voz do episódio que fizemos sobre oito sotaques de Portugal, e agora podem associar a cara à voz... Miguel, bem-vindo.

 

Olá, obrigado pelo convite.

 

Para mim é um prazer estar aqui a falar sobre as nossas particularidades, sobre minha cidade.

 

Nós vamos começar por falar um pouco sobre alguns dados importantes sobre Braga e depois vamos passar ao teu sotaque. Vamos analisar um pouco o teu sotaque e depois, como de costume, tens aí umas palavrinhas e expressões para eu tentar adivinhar o significado.

 

Vamos ver se consegues... Braga, antes de mais, é importante percebermos que apesar de ser uma cidade com uma relevância enorme no panorama atual, em Portugal e na língua portuguesa - portanto é das cidades com mais crescimento nos últimos anos, com uma população jovem também bastante importante - é uma cidade que... É uma cidade antiga.

 

Que mesmo antes do nascimento de Portugal, do Condado Portucalense, Braga já existia com um peso grande na altura dos Romanos. Era chamada Bracara Augusta. Era uma cidade que tinha uma importância... Era das maiores cidades até da Península Ibérica na altura da presença dos Romanos na nossa península e pronto. Braga ainda em muita dessa presença do mundo dos Romanos, com muitas obras que ficaram: as termas, com pontes, com uma série de estruturas que ainda ficaram.

 

Ou seja, Braga ainda tem muitas ruínas romanas ou estruturas, que nem são ruínas, que tão bem mantidas.

 

É, têm muita obra bem preservada.

 

Normalmente associamos grandes cidades, pensamos: Lisboa, Porto; Braga é consistentemente considerada a terceira maior cidade do país, pode-se dizer.

 

Sim, eu creio que sim, pronto, e nos últimos anos tem-se verificado um crescimento, até estávamos a falar à pouco do novo Census da população, Braga foi das cidades, dos concelhos que mais cresceu. Pronto, e o facto de ser uma cidade muito jovem é porque facto, até o número de filhos por pessoa também é elevado, comparativamente a outras cidades.

 

E portanto, também tem mais potencial para continuar a crescer.

 

Exatamente. Creio que já foi a Capital Europeia da Juventude, portanto é uma cidade que é muito virada para os jovens. Portanto, para os jovens e para as famílias também, pronto, mas para os jovens particularmente porque temos as Universidades com praticamente todos os cursos. Vem muita gente, também, de outras outras cidades à volta...  Portanto, acaba por concentrar também uma quantidade boa de jovens.

 

Onde é que se come a melhor francesinha?

 

Para mim é em Braga, mas eu sei que os meus amigos do Porto vão discordar e vão falar que a francesinha não nasceu em Braga. Que a francesinha é originária do Porto - e eu concordo - e de facto, a francesinha nasceu no Porto, mas atualmente temos muito boas francesinhas em Braga e para mim, é a melhor e é em casa que se come bem. Na minha.

 

Na tua casa.

 

Exatamente.

 

Para nós, que não vamos comer em tua casa, qual é que é o lugar que recomendas? É a Taberna Belga?

 

É a Taberna Belga, tem também a Taberna Real, portanto essas são as duas principais em Braga que são assim mais consensuais e que, no fundo, são os símbolos da francesinha de Braga.

 

Passando agora então à parte da linguística, algumas das características dos sotaques do Norte, em geral, é as vogais mais pronunciadas e os ditongos mais pronunciados, não é? Tu dizes "OU". Dizes "vOU" ou "bOU"... Pronto.

Portanto, pões o "B" em vez do “V”, neste caso. Ou seja, muitos sons que em português "Standard" seria "Vvvv", mas vocês dizem um...  Às vezes é um "B" mais pronunciado, outras vezes é um "B" mais suave tipo:

 

Sim... E pronto, esses dois aspectos que falaste eu acho que são dos mais relevantes.

 

Mas se calhar mais musical. Uma cadência mais...

 

Pronto. Eu ia dizer isso, eu acho que de facto temos esta oscilação e é mais musical, é mais cantada e a forma como as coisas são ditas são muito particulares. Há o "V" pelo "B", que no meu caso em particular já não digo tanto, principalmente porque agora trabalho cá em Lisboa, mas porque em Braga vai-me sair naturalmente trocar o "V" pelo "B".

 

Sim, quando estás rodeado de pessoas que falam de certa forma...

 

Puxo mais o sotaque e pronto, e é isso que também estavas a falar,  acho que os ditongos são mais longos, as vogais eu acho que nalguns casos são mais abertas.

 

Exatamente!

 

Pronto.

 

Tu disseste, por exemplo... Tu há bocado disseste mais cantado e abres mais o "A" em "cantÁdo".

 

Eu acho que nós tendemos a prolongar algumas sílabas quando queremos

dar uma ênfase especial. Pronto. Quando... É quase transformar a palavra,  dar-lhe um peso diferente, pronto. E também a musicalidade do sotaque também é isso não é? Dar-lhe ali um toque que dê para contar uma boa história.

 

Exatamente. Outra questão fonética que eu já reparei muito, tanto em sotaques do Porto como de Braga, o "R" final, muitas vezes não dizem... Por exemplo, eu digo qualquer verbo: "Falar", "Comer", digo aquele "ere".

E vocês dizem tipo: "Faláre". Não é bem "ere" tão forte, mas é ali a meio caminho entre, o "ere" assim mais inglês e o "re" mais certinho.

 

Como "falarE", "gostarE". Sinto...

 

Acho mais com "AR" do que com outras letras.

 

Ok... dá-me um exemplo de uma frase para eu dizer.

 

Por exemplo, dizer já não foi tanto, mas qualquer verbo com "AR", eu acho que aqui já deu para notar.

 

Miguel, em Braga qual é que é a vossa relação com o "vós"?

 

Pronto, eu acho que temos uma relação particular. Existe muito debate em relação a isso, mas acabamos muitas vezes por dizer "vós" em vez de "vocês", algumas vezes.

 

Mas usam os dois ou usam só o "vós"?

 

Eu acho que acabamos por usar os dois, não é? Como eu disse de manhã, também há muita variedade mesmo dentro da cidade, mas usamos muitas vezes o "Vós ides". "Vós ides onde?". É uma pergunta que às vezes nós usamos para substituir o "vocês", por exemplo.

 

Ou então "vinde" ou "ide", assim no imperativo.

 

"Vinde", "Ide", "Vinde connosco"... Portanto, usamos assim umas expressões que não são tão comuns no resto do país.

 

E passando para as expressões tens então aí umas expressões para eu tentar adivinhar.

 

Tenho! Eu ia começar primeiro com umas expressões que eu acho interessante e que são das mais conhecidas.

"Ser mais velho que a Sé de Braga".

 

Esta é relativamente fácil. Isto deve ser uma coisa que é muito velha.

 

Sim.

 

Mas aplicas a pessoas ou aplicas tipo, "essa história é mais velha que a Sé de Braga"?

 

Aplica-se a tudo, literalmente. Pronto. Tem a ver com os séculos que já tem a Sé de Braga, que vai para para mais de 900 anos e não há muitas coisas mais velhas do que a Sé de Braga, se fores a ver. Mais antiga do que Portugal, portanto é uma expressão que nós usamos, e que não usamos apenas em Braga, mas noutros sítios. Pronto. É uma expressão commumente utilizada. Outra que nós muitas vezes utilizamos e que não se utiliza só em Braga, que é a expressão: "Ver Braga por um canudo".

 

Essa aí eu nunca tinha ouvido. A outra por acaso já tinha ouvido, a primeira. "Ver Braga por um canudo". Cálculo que seja estar longe de Braga e portanto, estás a ver tipo, por um...Como é que aquilo se chama? É tipo um daqueles monóculos, daqueles que os piratas... É isso, tipo?

 

Mais ou menos.

O "ver Braga por um canudo" tem aqui só uma vinheta histórica que, pronto. Fazendo aqui um parênteses, no Bom Jesus, que é um dos sítios a visitar quando forem a Braga, tem um telescópio, não sei se é este o nome, para ver a cidade.

 

Acho que sim, exato.

 

E esta expressão foi utilizada e foi popularizada na altura, no cinema português, que seria uma expressão como... Que teria o significado de morrer na praia ou seja, estar quase a conseguir e por alguma razão não conseguir.

 

Já agora.

 

"Ver Braga por um canudo"... Pronto.

 

Nunca ia adivinhar. Portanto, é "morrer na praia". "Morrer na praia" é uma expressão que se utiliza em todo Portugal, que é estares quase a chegar ao teu destino ou ao teu objetivo, e por muito pouco não conseguires.

 

Está a começar a ficar na altura de usar um "chuço".

 

Um quê?

 

Mas está mesmo a começar a ficar na altura?

 

Acho que sim, nos próximos dias, vai ser útil...

 

Ah ok. Então, o céu tá começar a ficar mais... Não tá a ficar cinzento, portanto é de frio. Não é de chuva.

 

É que "chuço", penso logo em chuva. "Chuço" ou "Chouço"?

 

"Chuço"!

 

Pah, é um casaco? Não. É um cachecol?

 

É uma guarda chuva.

 

Eu estava estava certo... Ok, ok.

 

Estavas a ir bem.

 

Ok. Mas vocês dizem tipo, usam mesmo a palavra "chuço"? Tipo: "pega aí esse "chuço"?

 

Sim. Pronto, obviamente as pessoas continuam a usar a palavra guarda-chuva, mas "chuço" é mais fácil, é mais curtinho.

 

Um "broeiro".

 

Um "broeiro" é uma pessoa que faz broas? O padeiro faz pão, bromo é um tipo de pão... Claramente não é, não é?

 

Um "broeiro" é alguém.

 

Sim.

 

E "broeiro" vem de broa. Supostamente...

 

Sim...

 

Portanto, deve haver ali alguma zona em Braga ou à volta onde há tipo...

São famosos pelas suas broas e é uma forma insultuosa de chamar a pessoas desse sítio.

 

É insultuoso, mas não sei. Eu acho que não existe uma explicação relacionada com padaria.

 

Eu estou a tentar ir demasiado fundo... "Broeiro"...

 

Não sei se existe, eu acho que não, mas "broeiro" é uma forma de uma pessoa se adereçar a alguém, ou comentar a alguém. A alguém rude, a alguém que não se sabe comportar ou que é parolo, pronto. Que é uma série de coisas não boas, e há coisas que é mesmo só vendo um "broeiro" para saber o que é. Só vendo um "broeiro".

 

Já agora, "azeiteiro" também se usa muito no norte, se calhar mais do que cá.

 

Sim, "azeiteiro" também se usa, mas esse "azeiteiro", acho que o nome "azeiteiro"... Acho que o Braga não fica com isso...

 

Não, mas também se usa mais do que cá.

 

Sim. "Azeiteiro" também tem essa conotação pejorativa, sim. Que é semelhante!

 

Sim.

 

Que é semelhante ao "broeiro, é parecido...

 

O que é injusto, porque em Portugal todos adoramos azeite. Metemos azeite em tudo.

 

E broa é ótimo.

 

E broa também, portanto associar coisas más a comidas tão boas não é muito positivo.

 

"Cabaneira".

 

"Cabaneira"? "Cabaneira" não tem a ver com cabanas?

 

Não.

 

Uma cabana, é um sítio para uma pessoa se abrigar, uma espécie de mini casinha assim feita muito pequena muito frágil. Um "shack", em inglês .

 

Agora... "Cabaneira" não é uma senhora que constrói cabanas...

 

Não, não.

 

Que seria o que uma pessoa pensaria...

 

Também é pejorativo?

 

Em certa medida, sim.

 

Vocês é só dizer mal...

 

Sim! Eu comecei por estes, tu deste-me a liberdade.

 

Dou-te a liberdade que tu quiseres.

 

"Cabaneira". Sua "cabaneira"... portanto é pejorativo, será que é tipo uma mulher da vida?

 

Nem por isso...

 

Pronto, "cabaneira" é mais aquela pessoa coscuvilheira, que está sempre em cima de tudo o que é que cusquice, sempre a querer saber da vida dos outros, a comentar a vida dos outros...

 

E que está sempre em dramas e...

 

"Cabaneira".

 

"Cabaneira", pronto.

 

"Picheleiro".

 

Acaba tudo em "eiro".

 

É verdade!

 

"Picheleiro"?

 

Mas não fiz de propósito.

 

O que é que uma pessoa pensa quando pensa em "picheleiro"?

 

Queres uma dica?

 

Diz lá!

 

Uma frase em que eu use a palavra "picheleiro"? 

 

Bora!

 

Pronto. Esta cozinha está cheia de água eu acho que tenho que chamar um "picheleiro".

 

É um canalizador?

 

É um canalizador.

 

Trata das canalizações, trata de uma série de coisas relacionadas...

 

Isto tem algum motivo? Pah, porque "picha"...

 

Uma pessoa quando pensa em "picha", é uma forma dizer "o pénis".

 

Sim, eu acho que não tem...

 

Picheleiro!

 

Há muitas pichelarias em Braga! É verdade! É um bom negócio. A pichelaria...

Ficamos contentes quando "fazemos a pomba", sabes o que é?

 

Não.

 

Mas, "pomba" é pénis na Madeira...

 

Ah ok...

 

Não sabias?

 

Não sabia...

 

E portanto, eu vivi dois anos na Madeira e aprendi isso, portanto sempre que eu oiço "pomba", no contexto que não seja o animal, faz-me rir por causa disso.

 

Sim, eu percebi!

 

"Fazer a pomba"? 

 

"Fazer a pomba", não tem a ver com genitália.

 

Não tem, isso não tem...

 

"Fazer a pomba"?

 

Pah... Pomba é o animal da paz. "Fazer a pomba" é tipo fazer as pazes.

 

Não...

 

Nada a ver.

 

"Fazer a pomba" é quando tu fazes um bom negócio.

 

A sério?

 

Quando te tentam vender uma coisa por 500 e tu compras por 100. Ou então quando quando tens uma coisa gratuita e não tavas à espera...

 

Sentes que saíste a ganhar.

 

Sentes que saíste a ganhar duma situação negocial, seja ela qual for.

 

"Fiz a pomba."

 

Exato.

 

Eu também aprendi que no Porto pergunta-se às pessoas se elas são de Braga, quando deixam a porta aberta.

 

Ah, isso é verdade.

 

O que é que tu achas sobre isso?

 

Como é que eu me esqueci de falar dessa...

 

O que é que eu acho sobre isso? Eu acho que, pronto, vinheta histórica: há um monumento em Braga que é o Arco da Porta Nova e eu acho que poderá vir daí essa expressão.

 

Foi o que me foi dito.

 

Pronto, e eu no início achei que era só uma forma das pessoas usarem essa expressão em qualquer situação, mas eu depois começo a perceber que é um padrão meu e um padrão familiar, porque eu entro na casa das pessoas e oiço a vida inteira das pessoas dizer: "Porque é que não fechaste a porta?" Ou então: "és mesmo de Braga... Porque é que deixas sempre a porta aberta?", "nota-se que és mesmo de Braga"... e eu ouvi isto a vida toda. E fui achando que era só por as pessoas saberem que eu era de Braga, mas depois fui percebendo que pode ver ali algum fundo de verdade para isto.

 

O pessoal em Braga é mais... Confia mais e deixa as portas abertas.

 

Confia mais e... O deixar a porta aberta tem aquele simbolismo de que pode vir ainda mais alguém, portanto não vamos fechar a porta a ninguém.

 

Exatamente.

 

Está ali no inconsciente dos bracarenses, que fechar a porta a alguém não faz muito sentido. Pode vir ainda alguém e ninguém gosta de levar com a porta na cara.

E por último, uma palavra que nós usamos que é: "basqueiro".

 

"Basqueiro", mais uma palavra acabada em "eiro" portanto, mais um insulto provavelmente...

 

Não.

 

Alguém é "basqueiro"?

 

Mas não é uma coisa má.

 

Não...

 

Ahh! "Basqueiro"! É tipo, confusão. É tipo, "ganda basqueiro". Ganda confusão...

 

Granda barulheira... Está aqui uma confusão, eles estão a fazer imenso basqueiro.

 

Certo, certo... Nós também... Já ouvi, não sei se nós usamos ou se já ouvi de malta do Norte mas basqueiro, sim, sim...

 

Lembrei-me de uma palavra que eu não te tinha dito e que se calhar não sabes o que é, que é: "estrugido".

 

Por acaso sei, sei que é do norte e já conhecia antes e já saiu no vídeo que fiz sobre o Porto e é um refogado.

 

Ok, pronto.

 

É o azeitinho, com a cebola.

 

Com o alho. Para cozinhar. Ires fazer o arrozinho e tal...

 

Exatamente.

 

E a outra palavra de que falámos, que é talvez uma das palavras mais usadas em 2020/2021, que é: "vacina". Portanto, no norte diz-se "bácina", às vezes assim com um ligeiro B. Com acento no "A". Isso. E nós em Lisboa e acho que em mais de metade do país, dizemos vacina.  Qual é que é a forma correta? Como é que se escreve?

 

Eu acho que cada um deve dizer da forma que se sente melhor. Acho que sim... Ficamos neste atendimento.

 

É verdade. Não, é assim: Muitas pessoas dizem "vácina" no norte ou "bácina", como tu disseste, claro que muitas outras no país dizem vacina mas, pronto. O português também se renova e tem as suas nuances, as suas particularidades.

 

É isso mesmo.

 

Miguel, muito obrigado! Tens que ir trabalhar...

 

Tenho de ir trabalhar Leonardo... Espero ter representado bem a minha cidade.

 

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