Ep. 30 - A Páscoa em Portugal

Ep. 30 - A Páscoa em Portugal
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Neste episódio aprendemos a história da Páscoa e como esta é celebrado em Portugal.

TRANSCRIÇÃO:

Olá a todos e bem vindos de volta ao Portuguese With Leo!


Há umas semanas atrás fiz um episódio sobre o Carnaval, e desde então estivemos no período da Quaresma, que são os 47 dias entre a terça-feira de Carnaval e o domingo de Páscoa!


Pois bem, a Quaresma acabou no domingo passado, dia 4, que foi dia de Páscoa, e por isso vou falar precisamente sobre essa tradição, a Páscoa.


Este não é o primeiro episódio que faço sobre um feriado ou celebração internacional importante. Já falei neste podcast sobre o Natal, o Carnaval, o Halloween, o Dia das Mentiras, e muitos mais virão à medida que o ano avança.


Como já é costume neste tipo de episódios, vou começar por fazer uma introdução histórica sobre as origens da Páscoa e depois vou explicar como é que esta é celebrada em Portugal hoje em dia.


Então, a história da Páscoa! A Páscoa, segundo o Cristianismo, é a celebração da Ressurreição de Jesus Cristo ocorrida 3 dias após a sua crucificação, segundo o Novo Testamento da Bíblia, e é a celebração mais importante para os cristãos.


Acredita-se que a palavra Páscoa venha do Latim Pascha, que por sua vez vem do hebraico Pesach, que é a celebração judaica que acontece na mesma altura da Páscoa, sendo até conhecida como Páscoa judaica, e que celebra a libertação dos hebreus da escravidão no Egito.


Jesus Cristo era judeu, e como tal estava em Jerusalém com os seus apóstolos a celebrar o Pesach. Depois da ceia de Pesach, conhecida internacionalmente como a Última Ceia, Jesus Cristo foi traído por Judas, foi preso e crucificado numa sexta-feira, conhecida hoje em dia como Sexta-feira Santa.


Segundo os Evangelhos, Jesus Cristo ressuscitou “no terceiro dia”, e portanto se contarmos essa sexta-feira como sendo “o primeiro dia”, o segundo dia foi o sábado e o terceiro dia foi o domingo, o domingo de Páscoa. E a Páscoa não é celebrada num domingo qualquer! A Páscoa é celebrada no primeiro domingo depois da primeira lua cheia a seguir ao equinócio de primavera, que é dia 21 de março.


É um pouco complicado, e isto foi decidido em 325 d.C. (depois de Cristo) no Concílio de Niceia pelo imperador romano Constantino, que foi o primeiro imperador romano a converter-se ao Cristianismo.


Com o passar dos séculos, o Cristianismo foi-se espalhando pela Europa, e com este a Páscoa, e como acontece sempre com estas celebrações importantes, a Páscoa foi sendo influenciada pelos costumes pagãos dos locais por onde se ia espalhando. De facto, o nome inglês para a Páscoa, Easter, bem como o nome alemão, Ostern, ambos vêm da palavra Ēostre, que era o nome da antiga deusa da Fertilidade e da Primavera Anglo-Saxónica.


Um dos costumes que foi adotado mais tarde pelos cristãos é talvez o símbolo mais famoso da Páscoa: o ovo de Páscoa. O ovo tinha sido sempre um símbolo pagão de fertilidade, e algures no século XIII os cristãos começaram a pintar ovos de vermelho. A gema no interior do ovo simbolizava o renascimento de Jesus e a cor vermelha no exterior representava o sangue derramado por Jesus durante a sua crucificação.


Outra tradição que apareceu com o passar do tempo foi a do coelho da Páscoa. Embora os coelhos não ponham ovos, por alturas do século XVI começou na Europa a tradição de os pais dizerem aos filhos que, se estes se portassem bem, o coelho da Páscoa viria deixar ovos coloridos.


Finalmente, no século XIX, surgiu a parte mais deliciosa da tradição da Páscoa como a conhecemos hoje em dia: o chocolate! A produção de ovos de chocolate durante a Páscoa começou na França e na Alemanha e rapidamente se espalhou por toda a Europa quando começou a ser possível a produção industrial de chocolate em grandes quantidades.


Agora que já sabemos a história da Páscoa, como é que esta se festeja então em Portugal? Em Portugal a Páscoa é uma espécie de mistura de todas estas tradições que foram aparecendo ao longo dos séculos de que eu acabei de falar.


Por um lado, está bem presente o lado religioso. A semana antes do domingo de Páscoa, conhecida como Semana Santa, é uma semana em que há muitas missas e procissões em que se celebra todo o percurso de Jesus Cristo, desde a chegada a Jerusalém até à sua crucificação, na Sexta-feira Santa, e depois a sua Ressurreição, no domingo de Páscoa.


No domingo de Páscoa normalmente há refeições em família, e, à boa moda portuguesa, há muita comida!

 

Para começar, há muita carne, e isto é para compensar o facto de, na Sexta-feira Santa, a carne ser proibida, e para simbolizar o fim da Quaresma, que era aquele período de 40 dias de jejum entre o Carnaval e a Páscoa.


Por outro lado, adoptando as tradições dos ovos, do Coelho da Páscoa e do chocolate, há muitos ovos de chocolate, muitos coelhos de chocolate, amêndoas de chocolate, há muito chocolate!


Estas tradições do chocolate, como eu já disse, têm origem noutros países, mas há uma iguaria que é 100% portuguesa, que se come durante a Páscoa, que é o Folar de Ovos. O Folar de Ovos é uma tradição de origem desconhecida que até tem uma lenda associada que é a seguinte:


Em tempos medievais, numa aldeia portuguesa, vivia uma jovem chamada Mariana que desejava casar cedo. Ela rezou à sua santa preferida, a Santa Catarina, e pim pam pum, apareceram-lhe logo dois pretendentes. Os dois eram jovens e bem-parecidos, mas um era um fidalgo rico e o outro era um lavrador pobre.


Para muitas raparigas isto seria uma decisão fácil, mas a nossa Mariana não ligava ao dinheiro, e não tinha grande facilidade em tomar decisões sozinha, por isso voltou a pedir ajuda à Santa Catarina para que a ajudasse a fazer a escolha certa. O fidalgo e o lavrador tinham estabelecido como data limite o Domingo de Ramos, que é o domingo uma semana antes do domingo de Páscoa. Nessa data, a Mariana tinha de ter uma decisão.


Ora, chegou o Domingo de Ramos e a Mariana ainda não tinha decidido, e o fidalgo e o lavrador foram bater à sua porta, mas começaram à bulha um com o outro. Em vez de esperar que eles acabassem de lutar para escolher o vencedor, a Mariana, que não aguentava ver violência, decidiu voltar a pedir ajuda à Santa Catarina e a Santa Catarina finalmente lhe deu uma resposta e disse-lhe para escolher o lavrador pobre.


A Mariana assim fez, e claro que o outro, o fidalgo rico, não ficou nada contente com a situação e prometeu que no dia do casamento viria para matar o lavrador. Mais uma vez, a Mariana fez a única coisa que sabia fazer e rezou à Santa Catarina para a safar daquela situação. A lenda diz que a Santa piscou o olho à Mariana, mas não aconteceu nada.


Entretanto passou uma semana, chegou o dia de Páscoa e a Mariana viu que em cima da mesa da sua sala estava um bolo grande com ovos inteiros lá dentro. Achou estranho, correu para a casa do seu futuro marido, o lavrador, e este contou-lhe que também lhe tinha aparecido o mesmo bolo. Foram ter com o fidalgo que, aparentemente, também tinha recebido um bolo igual.


A Mariana ficou convencida de que este bolo tinha sido obra de Santa Catarina, que tinha oferecido um bolo a cada um dos três para que eles ficassem todos amiguinhos e não andassem mais à bulha.


Ou seja, qual é a moral da história? O folar tornou-se uma espécie de símbolo da reconciliação e amizade durante a Páscoa, e em Portugal temos a tradição de os padrinhos oferecerem um folar aos seus afilhados.


É uma história bonita, mas aqui entre nós, não me parece que um folar, por mais delicioso que seja, seja uma boa compensação para a perda de uma mulher. Todos ganharam um folar, mas o lavrador ficou com a Mariana enquanto que o nosso amigo fidalgo ficou de mãos a abanar.


E a nível mais pessoal, eu não me lembro de alguma vez ter recebido um folar dos meus padrinhos, por isso, Zé e Marina, se estiverem a ver este vídeo, já sabem o que é que eu quero este ano. Quero um belo de um folar!


E com esta lenda acaba este episódio sobre a Páscoa em Portugal! Espero que tenham gostado, espero que comam muito chocolate e muitas coisas boas este ano, e vemo-nos para a semana!

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